A CANONIZAÇÃO DOS SANTOS

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Apresentamos a seguir mais um excelente e esclarecedor artigo de autoria do Revmo. Pe. Élcio Muricci sobre as beatificações e as canonizações. Em tempos onde sedevacantistas e falsos “tradicionalistas” (Principalmente os “teólogos” de internet) colocam em xeque, sem nenhum escrúpulo, a autenticidade de certas canonizações, o artigo vem a calhar. 

Por Pe. Élcio Muricci

Observações preliminares:

 

1ª – Definição de canonização: Canonização é a sentença última e definitiva pela qual o Soberano Pontífice, por um juízo feito de maneira correta e rigorosa, sobre a heroicidade das virtudes de algum servo de Deus e sobre a verdade dos milagres pelos quais esta heroicidade das virtudes é manifestada, ele declara que este servo de Deus foi recebido no céu entre os santos e propõe este servo de Deus digno de ser cultuado e invocado por todos os fiéis.

Esta é a definição de canonização formal da qual aqui falamos.

Mas pode acontecer outro tipo de canonização. É a seguinte: Sem um prévio exame jurídico, o culto já há muitos anos prestado a um servo de Deus é somente PERMITIDO pelo Romano Pontífice, sem que o Papa por um ato positivo confirme este culto popular, ou sem que inscreva o tal servo de Deus no Missal  ou no Breviário para toda a Igreja Universal. Se, porém, este tal culto dum servo de Deus é SOBEJAMENTE  CONFIRMADO pelo Romano Pontífice e por umDECRETO POSITIVO é imposto a toda a Igreja Universal, então nós teríamos uma canonização que equivaleria a canonização formal.

 

2ª – Exame rigoroso: Aprendi desde o tempo do Seminário Menor, que as canonizações feitas outrora não eram com certeza infalíveis, porque se proclamava santa uma pessoa sem exame rigoroso. É o que diz o autor do Manual de Instrução Religiosa, o célebre Boulanger.(Confira p. 206, nº 134, nota.). O mesmo Boulanger observa que a Infalibilidade nas Canonizações não é verdade de fé. É apenas opinião comum entre os teólogos.

 

3ª – Resumo histórico das canonizações: Pelo que acabamos de observar, é indispensável um resumo histórico das canonizações.

A primeira canonização papal formal parece ter sido feita no ano 993 (portanto, só no fim do sec. X) pelo Papa João XV. Canonizou o servo de Deus S. Odorico. Diz o Papa Beato João Paulo II na sua Constituição Apostólica “Divinus Perfectionis Magister” de 25 / 01 / 1983, que a Instrução das causas de canonização que o Papa Sixto V deu à Congregação dos Sagrados Ritos fundado por ele em 1588, foi-se desenvolvendo ao longo do tempo através de novas normas, sobretudo por obra do papa Urbano VIII. (Este em 1642 fez os Decretos que deveriam ser observados nas canonizações e beatificações). Estas normas do Papa Urbano VIII foram legadas por Bento XIV à posteridade numa obra intitulada “De servorum Dei beatificatione e de Beatorum canonizatione” ( Sobre a beatificação dos servos de Deus e sobre a canonização dos bem-aventurados). Estas normas são importantíssimas para o nosso estudo porque, além de virem de um papa, elas estiveram vigentes durante quase dois séculos na Sagrada Congregação dos Ritos. E, além do mais, passaram substancialmente para o Código de Direito Canônico preparado por São Pio X e editado pelo papa Bento XV no ano de 1917.

O servo de Deus, o Papa Paulo VI em 1969 fez modificações e estabeleceu que se fizesse também nas causas recentes um único processo de investigação ou de recolhimento de provas, a cargo do bispo, com autorização prévia da Santa Sé. Introduziu a inovação de o Papa presidir pessoalmente o rito da beatificação. Até as modificações feita por Bento XVI, o povo não via muito claramente a diferença entre Beatificação e Canonização.

O beato Papa João Paulo II, fez uma revisão do procedimento para a instrução das causas de canonização e entre outras coisas diz: “Putamus, etiam, praelucente doctrina de collegialitate a Concilio Vaticano II proposita, valde convenire ut ipsi Episcopi magis Apostolicae Sedi socientur in causis sanctorum pertractandis”. Em Português: “Julgamos também, à luz da doutrina da colegialidade proposta pelo Concílio Vaticano II, que é muito conveniente que os mesmos bispos estejam mais associados à Sé Apostólica no estudo das causas dos santos”.

O Santo Padre o Papa Bento XVI, gloriosamente reinante, fez também algumas mudanças no que se refere às Beatificações. Decidiu que o Papa não mais presida pessoalmente os ritos da beatificação. Isto por vários motivos: 1º – para realçar em maior medida nas modalidades celebrativas a diferença substancial entre beatificação e canonização; 2º – para tornar partícipes de modo mais visivel as Igrejas particulares nos ritos da beatificação dos respectivos Servos de Deus.

Mas é mister realçar que as beatificações não deixam de ser um ato do Romano Pontífice, o qual permite o culto local de um Servo de Deus, tornando pública a sua decisão mediante uma Carta Apostólica.

Como acabamos de ver neste esboço histórico, a obra mais importante é a do Papa Bento XIV “De servorum Dei beatificatione et de Beatorum canonizatione”. Por esta razão todos os teólogos, ao tratar da infalibilidade nas canonizações, citam esta obra do Papa Bento XIV que governou a Igreja de 1740 a 1758. Bento XIV é chamado o “Mestre” das Causas dos Santos.

 

Esta afirmação ou tese que diz ser o Sumo Pontífice infalível ao canonizar formalmente um beato, é comum entre os teólogos e considerada pela maioria como teologicamente certa. Isto significa o seguinte: esta tese ainda não é de fé definida (embora um dia possa ser definida) e portanto, quem a negar não é herege mas temerário. E se alguém disser que um papa errou nesta ou naquela canonização, quem tal afirmou não vai ser condenado como herege, mas mereceria ser punido com penas gravíssimas pelo escândalo que deu, pela falta de respeito, e pela temeridade. Eis o que diz o Papa Bento XIV na obra supracitada: “Aquele que ousasse afirmar que o Pontífice teria errado nesta ou naquela canonização, e que este ou aquele santo por ele canonizado não deveria ser honrado com culto de dulia, qualificaríamos se não herético, entretanto,  como temerário, como causador de escândalo a toda a Igreja; como injuriador dos Santos; como favorecedor dos hereges que negam a autoridade da Igreja na canonização dos santos; como tendo sabor de heresia, uma vez que ele abriria o caminho para que os infiéis ridicularizassem os fiéis; como defensor de proposição errônea e como sujeito a penas gravíssimas”.

 

4ª -  Uma  outra observação feita pelos teólogos é a seguinte: a simples inclusão de um nome no Martirológio Romano, sem declaração formal pelo papa, de que se trata de um santo, não envolve infalibilidade. Em tempos antigos, numerosos nomes foram dessa maneira incluídos no Martirológio e ainda hoje nele figuram. E a explicação dos teólogos em relação a este fato está em que os teólogos afirmam explicitamente que a Igreja não tem a intenção de declarar Santos aqueles cujos nomes apenas inclui no Martirológio.

 

5ª – Outra observação encontra-se na doutrina relativa às beatificações. Nelas, como é geralmente admitido, não está envolvida a infalibilidade. Por isso mesmo, o culto de um Beato em princípio não se estende a toda a Igreja. No entanto, pelo menos em tese se admite que um Beato possa ter um culto universal, sem com isso a infalibilidade da Igreja garanta a sua santidade. Ouçamos novamente Bento XIV:”… uma festa pode ser celebrada pela Igreja de dois modos: 1º – acompanhada de maneira absoluta pelo julgamento positivo ou pelo assentimento universal da Igreja sobre a santidade daquele cuja festa é celebrada; 2º – por mera concessão ou permissão, sem tal julgamento ou assentimento.

Quando a festa é celebrada do primeiro modo, como se dá na Canonização, daí se deduz perfeitamente a santidade de alguém (…) No segundo modo, daí só se segue que tal celebração não é de reprovar (…) Isso se verifica na Beatificação, em que não há um julgamento definitivo da Igreja, mas apenas uma permissão, e que não é sempre para a Igreja Universal (…) E, ainda que a Igreja Universal celebre a festa de um beato, caso haja uma declaração especial de que não se pretende condenar a opinião oposta (…) desta festa acompanhada de semelhante declaração não se pode deduzir com certeza onímoda a santidade daquele cuja festa se celebra”.

Compreende-se melhor essa doutrina tendo presente o princípio de que a infalibilidade, na canonização de um Santo, não decorre formalmente da imposição de seu culto litúrgico a Igreja Universal, mas sim da intenção que tem o papa de declarar, de modo solene e definitivo, que o Santo está na glória eterna e constitui modelo de virtude para todos os fiéis.

O Papa Bento XIV explica este fato da seguinte maneira: “… a diferença última entre a Beatificação e a Canonização não deve absolutamente ser colocada quer na permissão do culto, quer em sua limitação a pessoas e lugares particulares, mas sim na sentença última e definitiva sobre a santidade, sentença essa que preceitua, pela Canonização, o culto devido na Igreja Universal a alguns Santos, ao passo que absolutamente não preceitua pela Beatificação”.

E aqui surge uma pergunta: Em que sentido se deve entender este preceito de cultuar um Santo canonizado? O grande e célebre teólogo Pesch observa que a obrigação universal de venerar o Santo, não diz necessariamente respeito ao seu culto litúrgico, mas significa que “todos os fiéis são obrigados a considerá-lo sem dúvida como santo, isto é, digno, enquanto tal de culto publico”. Em outras palavras, a Igreja não obriga os fiéis a cultuar na prática este ou aquele santo. Mas nenhum fiel pode negar que algum santo canonizado seja digno de culto público.

Nada melhor para vermos claramente a grande diferença entre Beatificação e Canonização do que as fórmulas empregadas especificamente numa e noutra. A Canonização é a suprema glorificação por parte da Igreja de um Servo de Deus elevado às honras dos altares, com um pronunciamento de caráter decretativo, definitivo e preceptivo para toda a Igreja. Os termos empregados são muito próximos dos de uma definição solene infalível. Eis a fórmula: “Ad honorem Sanctae et Individuae Trinitatis… auctoritate Domini Nostri Jesu Christi, beatorum Apostolorum Petri et Pauli ac Nostra… Beatum N. N.  Sanctum esse decernimus ac definimus, ac Sanctorum Catalogo adscribimus, statuentes eum in universa Ecclesia inter Sanctos pia devotione recoli debere”. Em Português: “Em honra da Santa e Indivisível Trindade, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e com a Nossa… declaramos e definimos que o Beato N. N. é Santo, e o inscrevemos no Catálogo dos Santos, estabelecendo (decretando) que ele deve ser cultuado entre os Santos com pia devoção em toda a Igreja”.

Já a forma da beatificação é bem mais simples: “… facultatem facimus ut Venerabilis Servus Dei N. N. Beati nomine in posterum appelletur, ejusque festum… in locis ac modis iure statutis quotannis celebrari possit”. Em Português: “Concedemos a faculdade para que o Venerável Servo de Deus N. N. daqui para futuro seja chamado Beato e que sua festa possa ser celebrada todos os anos nos lugares e modos estabelecidos pelo direito”.

 

Objeção: Por um lado é certo que na Beatificação não entra a Infalibilidade; por outro, por ela a Santa Igreja já permite o culto particular ao Beato, inclusive Missa em sua honra. Não havendo assim a segurança absoluta que dá a infalibilidade, poderia acontecer de ser cultuado um prescito, ou seja, um condenado? Mas isso seria um absurdo!

Resposta: Dada a prudência com que a Igreja sempre age, além da assistência normal do Divino Espírito Santo, a Providência Divina nunca iria permitir tal coisa. Mesmo que realmente a pessoa beatificada não foi santa no sentido próprio, nunca poderia, no entanto, dar o caso de a Igreja permitir um culto a alguém que teria se condenado ao inferno. Assim, da Beatificação se pode concluir que a pessoa se salvou, ou seja, foi santa no sentido lato, morreu na graça de Deus. É evidente que, não sendo santa no sentido estrito da palavra, nunca será Canonizada. O Papa Bento XIV afirma ter, no decurso de longos processos de canonização quase tocado com a mão na intervenção do Espírito Santo: testemunhos extraordinários se produziam de repente, que ou resolviam as dificuldades ou faziam renunciar ao processo.

O Código de Direito Canônico de 1917, feito por São Pio X e concluído e publicado por seu sucessor o Papa Bento XV, traz, nada menos do que 142 cânones sobre as regras de beatificação e canonização. Do cânon 1999 a 2141. Estudei no Seminário Maior estes cânones; e a impressão que tive é que seria impossível a Santa Igreja canonizar formalmente alguém que não fosse santo no sentido próprio e estrito da palavra. Agora estou estudando o Novo Código de Direito Canônico.


Urbi et Orbi: Cristo, mão que Deus estendeu à humanidade para salvá-la

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Fonte: Montfort

Trechos da Mensagem Urbi et Orbi que o Santo Padre Bento XVI dirigiu aos cristãos do mundo todo em 25 de dezembro de 2011.

Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro!

Cristo nasceu para nós! Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado: a todos chegue o eco deste anúncio de Belém, que a Igreja Católica faz ressoar por todos os continentes, sem olhar a fronteiras nacionais, linguísticas e culturais. O Filho de Maria Virgem nasceu para todos; é o Salvador de todos.

Numa antífona litúrgica antiga, Ele é invocado assim: “Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança e salvação dos povos! Vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus”. Veni ad salvandum nos! Vinde salvar-nos! Tal é o grito do homem de todo e qualquer tempo que, sozinho, se sente incapaz de superar dificuldades e perigos. Precisa de colocar a sua mão numa mão maior e mais forte, uma mão do Alto que se estenda para ele. Amados irmãos e irmãs, esta mão é Cristo, nascido em Belém da Virgem Maria. Ele é a mão que Deus estendeu à humanidade, para fazê-la sair das areias movediças do pecado e segurá-la de pé sobre a rocha, a rocha firme da sua Verdade e do seu Amor (cf. Sal 40, 3).

E é isto mesmo o que significa o nome daquele Menino (o nome que, por vontade de Deus, Lhe deram Maria e José): chama-se Jesus, que significa «Salvador» (cf. Mt 1, 21; Lc 1, 31). Ele foi enviado por Deus Pai, para nos salvar sobretudo do mal mais profundo que está radicado no homem e na história: o mal que é a separação de Deus, o orgulho presunçoso do homem fazer como lhe apetece, de fazer concorrência a Deus e substituir-se a Ele, de decidir o que é bem e o que é mal, de ser o senhor da vida e da morte (cf. Gn 3, 1-7). Este é o grande mal, o grande pecado, do qual nós, homens, não nos podemos salvar senão confiando-nos à ajuda de Deus, senão gritando por Ele: Veni ad salvadum nos – Vinde salvar-nos!

O próprio fato de elevarmos ao Céu esta imploração já nos coloca na justa condição, já nos coloca na verdade do que somos nós mesmos: realmente nós somos aqueles que gritaram por Deus e foram salvos (cf. Est (em grego) 10, 3f). Deus é o Salvador, nós aqueles que se encontram em perigo. Ele é o médico, nós os doentes. O fato de reconhecer isto mesmo é o primeiro passo para a salvação, para a saída do labirinto onde nós mesmos, com o nosso orgulho, nos encerramos. Levantar os olhos para o Céu, estender as mãos e implorar ajuda é o caminho de saída, contanto que haja Alguém que escute e possa vir em nosso socorro.

Jesus Cristo é a prova de que Deus escutou o nosso grito. E não só! Deus nutre por nós um amor tão forte que não pôde permanecer em Si mesmo, mas teve de sair de Si mesmo e vir ter conosco, partilhando até ao fundo a nossa condição (cf. Ex 3, 7-12). A resposta que Deus deu, em Cristo, ao grito do homem, supera infinitamente as nossas expectativas, chegando a uma solidariedade tal que não pode ser simplesmente humana, mas divina. Só o Deus que é amor e o amor que é Deus podia escolher salvar-nos através deste caminho, que é certamente o mais longo, mas é aquele que respeita a verdade d’Ele e nossa: o caminho da reconciliação, do diálogo e da colaboração.

Por isso, amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, neste Natal de 2011, dirijamo-nos ao Menino de Belém, ao Filho da Virgem Maria e digamos: “Vinde salvar-nos”! Repitamo-lo em união espiritual com tantas pessoas que atravessam situações particularmente difíceis, fazendo-nos voz de quem a não tem.

Amados irmãos e irmãs, dirijamos o olhar para a Gruta de Belém: o Menino que contemplamos é a nossa salvação. Ele trouxe ao mundo uma mensagem universal de reconciliação e de paz. Abramos- Lhe o nosso coração, acolhamo-Lo na nossa vida. Repitamos-Lhe com confiada esperança: Veni ad salvandum nos.

Imagem/fonte:http://revistaepoca.globo.com/Mundo/noticia/2011/12/em-mensagem-de-natal-papa-afirma-que-competir-com-deus-e-grande-pecado.html

O Pleito pela Missa Latina

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Fonte: Traduções Gratuitas

O Pleito pela Missa Latina

Por Dietrich von Hildebrand
Dietrich von Hildebrand foi um dos filósofos cristãos mais eminentes do mundo. Professor na Fordham University, o Papa Pio XII chamou-o “o Doutor da Igreja no século 20″. Ele é autor de vários livros, incluindo Transformation in Christ e Liturgy and Personality.

TRIUMPH, Outubro 1966
Os argumentos da Nova Liturgia foram elegantemente condicionados, e talvez agora sejam estudados por recomendação. A nova forma da missa foi planejada para empenhar o celebrante e o fiel numa atividade comunal. No passado, o fiel servia a missa em isolamento pessoal, com cada crente fazendo suas preces privadas, ou, na melhor, seguindo as fórmulas no missal. Hoje, o fiel pode aproveitar o caráter social da celebração; estão aprendendo apreciá-la tal quais os almoços comunitários. Antigamente, o sacerdote murmurava em língua morta, o que criava barreiras entre este e o povo. Agora, todos falam em inglês, o que tende a unir estreitamente povo e sacerdote. No passado, o sacerdote realizava a missa de costa para o povo, dando um clima de ritual esotérico. Hoje, a missa é ocasião mais fraternal, pois o sacerdote encara o povo. No passado, o sacerdote entoava estranhos cânticos medievais. Hoje, toda a assembléia executa canções de melodias simples e letras fáceis; estão até flertando com a música popular. Concluindo, o pleito pela missa nova resume-se a isto: fazer o fiel estar mais a vontade na casa de Deus.
Além do mais, dizem ter tais inovações a sanção da Autoridade; elas são apresentadas como resposta obediente ao espírito do Concilio Vaticano II. Todavia, o concílio diz, na sua constituição sobre liturgia, que a missa vernacular só é permitida em casos em que o bispo local ache-a oportuna; a constituição insiste fortemente na permanência da missa latina e aprova, de forma inconteste, o canto gregoriano. Porém, os “progressistas” litúrgicos não se abalaram com a diferença entre permitir e ordenar. Sequer hesitaram quando autorizaram modificações, tais como o estar de pé ao receber a Santa Comunhão, o que não é mencionado pela constituição. Os progressistas argúem que podem tomar tais liberdades, pois a constituição é, afinal de contas, apenas o primeiro passo num processo evolucionário. Eles parecem estar neste caminho. Hoje, em qualquer lugar, é mui difícil encontrar a missa latina; nos Estados Unidos, são praticamente inexistentes. Até a missa conventual dos monastérios é falada em vernáculo, e o glorioso gregoriano foi substituído por melodias insignificantes.
Minha preocupação não é com o estatuto legal das mudanças. Insisto: não quero dar a entender que reclamo de a constituição ter permitido o vernáculo substituir o latim. O que deploro é que a missa nova está substituindo a latina, que a antiga liturgia está sendo imprudentemente estraçalhada e negada pela maioria do povo de Deus.
Gostaria de levantar algumas questões àqueles que estão a promover tais desdobramentos: a missa nova, , melhorará o espírito humano mais que a antiga – evoca o sentido de eternidade? Ajudará a elevar nossos corações acima das preocupações mundanas – acima dos aspectos puramente naturais do mundo – até a Cristo? Aumentará a reverência, a apreciação do sagrado?
Certo, tais questões são retóricas e auto-evidentes. Fi-las, pois penso que cristãos sérios vão querer considerar sua importância antes de chegarem a uma conclusão sobre os méritos da nova liturgia. Qual o papel da reverência numa vida verdadeiramente cristã, e, mais importante, numa verdadeira adoração cristã de Deus?A reverência dá ao ser ocasião de falar conosco: a grandeza última do homem é ser capax Dei. A reverência é de importância capital para todos os domínios da vida do homem. Ela pode ser chamada corretamente de “mãe de todas as virtudes”, pois esta atitude básica pressupõe todas as virtudes. O gesto mais elementar de reverência é um reflexo do próprio ser. Ela distingue-se da majestade exterior do ser, que provém da mera ilusão ou ficção; a reverência é o reconhecimento da consistência interior e da positividade do ser – de sua independência às modas arbitrárias. A reverência dá ao ser a ocasião de desdobrar-se para como que falar conosco, fecundar nossas mentes. Portanto, a reverência é indispensável a qualquer intelecção adequada do ser. A profundidade e a plenitude do ser, além de todos os seus mistérios, nunca revelar-se-ão senão a uma mente reverente. Recordem-se de que a reverência é elemento constitutivo da capacidade de “contemplar”, que, como Platão e Aristóteles insistiam, é condição indispensável para a filosofia. De fato, a irreverência é a principal origem do erro filosófico. Se a reverência é a condição necessária para qualquer conhecimento seguro do ser, é, além disso, indispensável para acessar e compreender os valores baseados no ser. Somente o homem reverente, pronto a admitir a existência de algo maior que ele mesmo e predisposto ao silêncio, deixando o objeto falar-lhe – o homem que abre seu espírito – é capaz de penetrar no mundo sublime dos valores. Reconhecida a gradação dos valores, um novo tipo de reverência surge: a que responde não tão-somente à majestade do ser enquanto tal, mas ao valor especifico de um ser especifico e a sua posição na hierarquia de valores. Esta nova reverência permite ainda a descoberta de novos valores.
Somente numa atitude reverente o homem reflete seu caráter essencialmente receptivo: sua grandeza última é ser capax Dei. Em outras palavras, o homem possui a capacidade de apreender algo maior que ele mesmo, a fim de ser tocado e fecundado, abandonando-se a este algo por vontade própria – como pura resposta a tais valores. A habilidade de transcender-se distingue o homem da planta e do animal; este último empenha-se apenas em desdobrar a própria enteléquia [forma]. Ora, somente o homem reverente pode conscientemente transcender-se, conforme sua condição humana fundamental e situação metafísica. Melhor iremos ao encontro do Cristo elevando-nos a Ele, ou arrojando-O no mundo ordinário?Por sua vez, o homem irreverente aproxima-se do ser numa atitude de superioridade arrogante ou atrevida, de familiaridade presunçosa. Neste caso, está mutilado; é o caso do homem que, por muito se aproximar duma árvore ou construção, não pode mais vê-las. Em vez de manter a distância espiritual que lhe é própria – conservando um silêncio reverente, o ser talvez diga alguma coisa –, fecha-se; desta feita, silencia o ser. No incondicionado, a reverência é mais importante que a religião. Sabemos como isso afeta a relação do homem para com Deus. Existe uma ligação íntima entre a reverência e a sacralidade; a reverência permite-nos experimentar o sagrado, ascender para além do profano; a irreverência cega-nos a todo o mundo do sagrado. A reverência, incluindo o medo – em verdade, temor e tremor – é a resposta adequada ao sagrado.
Isso foi esclarecido por Rudolf Otto em seu famoso estudo The Idea of the Holy. Kierkegaard também chama atenção para o papel essencial da reverência no ato religioso, no encontro com Deus.
Igualmente, os judeus não estremecem profundamente quando o sacerdote conduz o sacrifício para o sanctum sanctorum? Isaias não estremeceu de medo devoto quando viu Jeová no templo e exclamou: “Ai de mim, estou perdido! Eu que sou um homem de lábios impuros… todavia meus olhos não viram o Rei”? Não foram tais as palavras de São Pedro após a pescaria miraculosa: “Aparta-se de mim, oh! Senhor, pois eu sou um pecador”, testificando que quando a realidade de Deus irrompe sobre nós, somos tomados de temor e reverência? O cardeal Newman expôs num sermão formidável que o homem que não teme nem reverencia não conhece a realidade de Deus. Quando São Boaventura escreve no Itinerarium Mentis ad Deum que somente o homem de desejo (tal como Daniel) pode entender a Deus, quer dizer que certa disposição de alma deve-se atingir a fim de entender o mundo de Deus, para o qual Ele nos quer levar. Este conselho é aplica-se, sobretudo, à liturgia da Igreja. O sursum corda – a elevação de nossos corações – é o primeiro requisito para a participação real na missa. Nada melhor para impedir a confrontação do homem para com Deus que a noção de “irmos ao altar de Deus” como se fôssemos a um divertido e relaxante compromisso social. Eis porque a missa latina com canto gregoriano, que eleva-nos à atmosfera sagrada, é muitíssimo superior à missa vernacular com músicas populares, que nos inclina a uma atmosfera meramente natural e profana.
O erro fundamental da maioria das inovações é imaginar que a nova liturgia traz o Santo Sacrifício da Missa para perto dos fiéis; que a podando dos velhos rituais trará a missa para a substância de nossas vidas. Perguntamos se é melhor encontrar com Cristo na missa elevando-se até Ele, ou arrojando-O em nosso mundo prosaico e ordinário. Os inovadores substituem a sacra intimidade com Cristo por uma inconveniente familiaridade. Realmente, a nova liturgia ameaça frustrar a confrontação com Cristo, pois desencoraja a reverência em face do mistério, elimina o temor, suprime o sentimento do sagrado. Não importa realmente se os fiéis sentem-se em casa na missa, mas se são transportados de suas vidas ordinárias para o mundo do Cristo – seja pela sua atitude de reverência perfeita, seja por estarem impregnados da realidade do Cristo.
Aqueles que decantam a nova liturgia insistem que, com o passar dos anos, a missa perdeu o caráter comunal e tornou-se ocasião de adoração individualista. A missa nova vernacular restauraria o sentimento de comunidade ao substituir as preces privadas pela participação da comunidade. Porém, esquecem-se de que há diferentes níveis e tipos de comunhão com outrem. O nível e a natureza da experiência comunitária são determinados pelo tema da comunhão, em nome de que ou por causa de que os homens estão reunidos. O maior bem representado pelo tema, o qual empenha todos os homens, se for o mais sublime e profundo, é a comunhão. O ethos e a natureza da experiência comunitária no caso duma emergência nacional é, obviamente, radicalmente diferente da experiência comunitária num cocktail. As diferenças mais admiráveis serão encontradas entre comunidades cujo tema é o sobrenatural ou o meramente natural. A base da união comunitária é realização espiritual dos homens tocados por Cristo – a Santa Comunhão – , muito mais sublime que a de qualquer comunidade natural. O genuíno “nós comungamos” dos fiéis, tão bem expressado pela liturgia da Quinta-feira Santa nas palavras congregavit nos in unum Christi amor, só é possível como fruto da comunhão eu-Tu com o próprio Cristo. Somente a relação direta Deus-homem pode realizar a sagrada união entre os fiéis.
O “nós-experimentamos” despersonalizante é uma versão perversa da comunidade.
Na comunhão em Cristo, não há a auto-afirmação encontrada nas comunhões naturais. Ela exala a Redenção. Liberta o homem de toda auto-centralização. Contudo, essa comunidade não despersonaliza o indivíduo: longe de dissolver o sujeito numa névoa cósmica e panteísta, tão preconizada hoje em dia, realiza por completo o verdadeiro eu do sujeito. Na comunhão com Cristo não existe o conflito entre a pessoa e a comunidade, que se apresenta nas comunhões naturais. Logo, a comunidade da experiência sagrada está realmente em guerra com o despersonalizante “nós-experimentamos” encontrado nas congregações e nas assembléias populares que tendem a absorver e sublimar o individuo.Esta comunhão em Cristo, que fora tão cheia de vida nos primeiros séculos cristãos, de que todos os santos participaram, que descobriu na liturgia uma expressão sem igual, está agora sob ataque – esta comunhão que nunca considerou o individuo apenas como seguimento da comunidade, ou instrumento para servi-la. Para tal propósito, é importante notar que a ideologia totalitária não está só no sacrifício do individual pelo coletivo; algumas das idéias cósmicas de Teilhard de Chardin, por exemplo, implicam no sacrifício coletivista. Teilhard subordina o individual e sua santificação ao suposto desenvolvimento da humanidade. Até na época em que esta teoria perversa foi adotada por vários católicos, havia muitas razões para que se insistisse vigorosamente no caráter sagrado da verdadeira comunhão em Cristo. Creio que a nova liturgia deva ser julgada por este teste: contribui para a autêntica comunidade sagrada? Concordamos que ela direciona o caráter da comunidade; porém, é o caráter desejado? Essa comunhão é baseada no recolhimento, na contemplação e na reverência? Qual das duas – a missa nova, ou a missa latina com canto gregoriano – evoca tais atitudes d’alma de modo eficaz, permitindo comunhão mais profunda e verdadeira? Não é patente que o caráter comunal da missa nova é puramente profano, e que, como quaisquer outros encontros sociais, é mistura de entretenimento casual e atividade incessante, impedindo a confrontação reverente e contemplativa com Cristo e o mistério inefável da Eucaristia?
É claro que nossa época esta permeada desse espírito de irreverência. Isso é a noção distorcida da liberdade, que exige direitos ao mesmo tempo em que recusa deveres, que exalta a auto-indulgência, que aconselha o “seja você mesmo”. O habitare secum dos Diálogos de São Gregório – o permanecer na presença de Deus, o que pressupõe reverência – hoje é considerado como antinatural, pomposo e servil. Porém, não é a missa nova um compromisso com o espírito moderno? Donde vem a depreciação da genuflexão? Por que a Eucaristia deve ser recebia em pé? Em nossa cultura, não é o ajoelhar-se a expressão clássica da adoração reverente? O argumento de que durante a refeição devemos antes estar de pé que ajoelhados é difícil de engolir. Além disso, esta não é a postura natural para comer: no relógio de Cristo, o estar sentado é o mesmo que dormir. Porém, o mais importante é a concepção irreverente da Eucaristia, para lhe enfatizar o caráter de refeição, em detrimento do caráter especial de mistério sagrado. Enfatizar a refeição às expensas do sacramento certamente denuncia uma tendência a obscurecer a sacralidade do sacrifício. Tal tendência parece ligada à lamentável crença de que a vida religiosa vai se tormar mais vívida, mais existencial se for imersa em nossa vida cotidiana. Todavia, corremos o perigo de absorver o religioso no mundano, de apagar a diferença entre o sobrenatural e o natural. Temo que isso represente uma intrusão inconsciente do espírito naturalista, do espírito tal como expressado pelo imanentismo de Teilhard de Chardin.
Novamente, porque se aboliu a genuflexão às palavras et incarnatus est do Credo? Não era esse um gesto belo e nobre de adoração reverente ao professar o abrasador mistério da Incarnação? Quaisquer que sejam as intenções do inovador, certamente criaram o risco, mesmo que somente psicológico, da diminuição do temor religioso e do respeito ao mistério. Porém, existe mais uma razão para hesitar fazer mudanças desnecessárias na liturgia. As mudanças frívolas ou arbitrarias são aptas a erodir um tipo especial de reverência: a pietas. A palavra latina, como a alemã pietaet, não possui equivalente em inglês, mas pode ser entendida como respeito geral pela tradição; honra àquilo que nos foi legado pelas antigas gerações; fidelidade aos nossos ancestrais e suas obras. Note que pietas é uma palavra derivada de reverência, porém não deve ser confundida com a reverência enquanto tal, que descrevemos como resposta ao grande mistério do ser e sobretudo, uma resposta a Deus. Segue-se que, se o conteúdo de uma dada tradição não corresponde ao objeto de reverência original, não merece a reverência derivada. Se uma tradição incorpora elementos maus, tais como os sacrifícios de seres humanos, no culto dos Astecas, então esses elementos não devem ser tomados por pietas. Não é, todavia, o caso cristão. Os que idolatram nossa época, que se impressionam com o que é moderno simplesmente por sê-lo, que acreditam que, em nossos dias, o homem finalmente “atingiu a maioridade”, carece de pietas. O orgulho desses “nacionalistas temporais” não é somente irreverente, mas incompatível com a fé real. Um católico deve observar a liturgia com pietas. Deve reverenciar, e portanto, temer abandonar as orações, as posturas e as músicas que foram aprovadas por tantos santos durante a Era Cristã, deixadas para nós como preciosa herança. Para não ir muito longe, a ilusão de que possamos substituir o canto gregoriano, com seus hinos inspirados e ritmos, por uma música tão boa quanto, senão melhor, denuncia uma auto-afirmação ridícula e falta de auto-conhecimento. Não podemos esquecer que, através da história do cristianismo, silêncio e solidão, contemplação e recolhimento foram considerados necessários para alcançar uma confrontação real com Deus. Este não é apenas um conselho da tradição cristã, a qual deve ser respeitada pela pietas: está enraizado na natureza humana. O recolhimento é a base necessária para a verdadeira comunhão; da contemplação surge a base necessária para a ação efetiva na vinha do Senhor. Uma espécie superficial de comunhão – a camaradagem jovial duma relação social – arrasta-nos para a periferia. Uma verdadeira comunhão cristã arrasta-nos para dentro dos abismos espirituais.
O caminho da verdadeira comunhão cristã: reverência…, recolhimento…, contemplação. Claro que devemos lamentar a carolice sentimental e individualista, reconhecendo que muitos católicos praticam-na. A experiência não é remédio para isso, nem a atividade é cura para a pseudo-contemplação. O remédio é encorajar a verdadeira reverência, a atitude de autêntico recolhimento e devoção contemplativa do Cristo. Somente tal atitude possibilita que aconteça uma verdadeira comunhão em Cristo. As leis fundamentais da vida religiosa que governam a imitação de Cristo, a transformação em Cristo, não se modificam de acordo com as modas e hábitos do momento histórico. A diferença entre a experiência comunitária superficial e a experiência comunitária profunda é sempre a mesma. O recolhimento e a adoração contemplativa do Cristo – que só a reverência torna possível – seria a base necessária para a verdadeira comunhão com os demais em Cristo, em qualquer era da história humana.

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO (III)

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VIGÁRIO DE CRISTO
Autor: D. Antônio de Castro Mayer
   Vigário de Cristo. É como identificamos o Papa. Assim o definem os Concílios, como o de Florença e primeiro do Vaticano.
   Como Vigário de Jesus Cristo, o Papa é o chefe da Igreja. Jesus Cristo edificou sua Igreja sobre a rocha de Pedro, e o Papa é o sucessor de São Pedro no cargo de Chefe. Daí a frase “ubi Petrus ibi Ecclesia”, para dizer que onde está o Papa aí está a Igreja. Eis que o primeiro Concílio do Vaticano destaca que ao Papa se deve obediência não somente nas questões de Fé e Costumes mas também nas relativas à disciplina e ao governo da Igreja, e declara que na comunhão com o Papa conservamos a união com a Igreja.
   Com efeito, o Papa é essencialmente o Vigário de Jesus Cristo. Em outras palavras, ele assume a Pessoa de Jesus Cristo. Ele faz suas vezes. Deve-se-lhe o acatamento e a obediência que se presta a Jesus Cristo, a quem ele representa. Seu poder, porém, sua jurisdição é vicária. De si, ele é de Jesus Cristo, pois, como escrevia o Papa Inocêncio III ao Patriarca de Constantinopla, em 12 de novembro de 1199, “o primeiro e precípuo fundamento da Igreja é Jesus Cristo”. O Divino Salvador, no entanto, confiou seu poder a Pedro: “Como meu Pai me enviou, Eu vos envio”, disse Ele aos seus Apóstolos, especialmente ao Chefe deles, São Pedro. Esta outorga foi de modo permanente, e para sempre, para que o Papa o exerça em seu lugar, fazendo-lhe as vezes, “vicens eius gerens”.
   Este aspecto é essencial ao Papado. Não pode ser olvidado. Seu esquecimento pode ter nefastas conseqüências. Pode levar a pessoa a pensar que o Papa é dono da Igreja, que pode fazer o que quiser, mandar e desmandar o que melhor lhe pareça, estando os fiéis obrigados sempre a simplesmente obedecer. Refletindo um pouco, vê-se que esta concepção atribui ao Papa a onisciência e a onipotência que são atributos exclusivos de Deus. Outra coisa não faz a idolatria que transfere à criatura o que é peculiar à divindade.
   Por este motivo, o primeiro Concílio do Vaticano ao definir os poderes do Papa, tomou o cuidado de definir também sua finalidade e seus limites. Deve o Papa conservar intacta a Igreja de Cristo, através da qual o Divino Salvador torna perene sua obra de salvação. Manterá, pois, a estrutura da Santa Igreja como o Senhor a constituiu, e velará para conservar e transmitir intacta a Fé e a Moral recebida da Tradição Apostólica. Para este fim e dentro destes limites, goza o Papa da assistência divina que lhe assegura a impossibilidade de errar e desorientar os fiéis sempre que definir um ponto de Fé e Moral.
   Não é despropósito pensar que, precisamente para fixar bem o poder vicário do Papa, tenha a Providência permitido que , no trono de São Pedro, se tenham assentado indivíduos, em cuja doutrina e/ou procedimento, encontram-se pontos gravemente prejudiciais à Fé e/ou à Moral. Não ensinavam com sua autoridade suprema e definindo matéria de Fé, ou davam mau exemplo com seu modo de proceder. Explica-se assim o julgamento emitido sobre Honório I quer pelo Concílio de Constantinopla quer por São Leão II, ou seja, que ele (Honório I) “com profunda traição permitiu que se maculasse a imaculada Fé desta Igreja Apostólica”. E de modo semelhante, verificaram-se fatos dolorosos na História de Igreja.
   Resistir a tais ensinamentos e maus exemplos não é recusar obediência ao Papa, ou à sua pessoa. Quem assim procede concede sua adesão ao Vigário de Jesus Cristo. E é somente como Vigário de Jesus Cristo que o Papa é dotado dos poderes de jurisdição em toda a Igreja. De onde, os Padres de Campos, ao recusar a nova Missa não estão recusando nem João Paulo II, nem a comunhão com toda a Igreja, uma vez que a nova Missa é prejudicial à Fé, pois, entre outros pontos, na sua ambigüidade, não se destaca suficientemente da heresia protestante”. (Jornal Monitor Campista, 17/10/1982).

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO (II)

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Os fatos comprovam que nesta crise criada pelo modernismo dentro da Igreja há, tanto para nós membros do clero como para os fiéis, um duplo escolho que ameaça a barquinha de nossas almas: o Progressismo e o Sedevacantismo.
   Que é Progressismo? É o novo nome do Modernismo, objeto de severa condenação por parte de São Pio X, na Encíclica “Pascendi Dominici Gregis”. Um e outro tendem a “solapar pelos alicerces o Reino de Jesus Cristo”. Por isso São Pio X os chamava de “os mais perigosos inimigos da Igreja”. Não atacam de frente. Disfarçam. Habitualmente usam a baldeação ideológica inadvertida, ou seja, fazem uma lavagem cerebral mudando as idéias aos poucos sem a pessoa perceber.
   O Progressismo não nega frontalmente o dogma revelado. Age mais através dos ambientes que vai criando com imprecisões de linguagem e termos ambíguos. Seus caminhos são tortuosos. Há, no entanto, um critério para surpreendê-los, que não falha. Todas as suas imprecisões, ambigüidades, novos formulários, etc, obedecem à mesma direção. Operam no sentido de afastar os fiéis da Tradição, das fórmulas tradicionais, dos limites precisos entre a verdade e o erro, dos costumes elaborados lenta e seguramente pelos séculos de Cristianismo, de tudo enfim que indique, sem o menor perigo de engano, o Cristianismo autêntico, ortodoxo, a fidelidade a Revelação e ao Espirito de Nosso Senhor Jesus Cristo.
   Antes de ser criada a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, durante um ano, foram feitas várias reuniões, semana de estudo e retiro. Tudo para nos convencer a aceitar a Administração Apostólica. No início foi distribuída uma apostila explicando o que Roma nos oferecia e o que nós prometíamos. Eis alguns trechos:“Aceitamos do Concílio Varticano II tudo aquilo que estiver em consonância com o Magistério perene da Igreja  e sua Sagrada Tradição: “eodem sensu eademque sententia”. Reservamo-nos o direito de fazer críticas construtivas ao que a eles se opõem, empenhando-nos pela sua correção. Conservamos com exclusividade a Missa Tradicional. Aceitamos que a Missa segundo o Novus Ordo seja válida, se celebrada corretamente e com intenção de oferecer o verdadeiro sacrifício da Missa. Reservamo-nos o direito de fazer observações e críticas respeitosas e construtivas à Reforma Litúrgica nas suas ambigüidades, empenhando-nos pela sua correção, na linha do Breve Exame Crítico dos Cardeais Otavianni e Bacci e das recentes críticas feitas pelo Cardeal Joseph Ratzinger e pelo Cardeal Ferdinando Antonelli. (Nota: O Cardeal Castrillon Hoyos disse que tudo isso nos seria concedido nas expressões do cânon 212).Continuando os trechos da apostila: ”Atendendo ao desejo do Santo Padre, desejamos ajudá-lo a combater o modernismo, o liberalismo, e a maçonaria dentro da Igreja. Reconhecendo que no calor da batalha pela verdade católica, certas críticas foram demasiado ácidas e pessoais, comprometemo-nos doravante a abaixar o tom das críticas, já que serão feitas em família, evitando ataques pessoais e permanecendo no campo doutrinário, segundo a sentença de Santo Agostinho: “In principiis unitas, in dubiis libertas, in omnibus charitas”. FINALIZANDO: ( Última garantia): Não há o que temer. Se de tudo não der certo o que foi proposto ou se fizerem exigências fora do que foi contratado, nós teremos a liberdade de convocar a imprensa, declarando que fomos traídos, e nos retirar e voltar à situação em que estamos atualmente”.
   Pelo que sei, e a bem da verdade e da justiça, devo declarar que a Santa Sé jamais fez a mínima exigência fora do que foi contratado com os padres da União Sacerdotal São João Batista Maria Vianney. Vira progrssista quem quer; e vira sedevacantista quem quer.
   Que é Sedevacantismo? Os sedevacantistas são de várias gamas: desde os mais extremistas até aos mais moderados. Sedevacantistas são aqueles que levados talvez até pelo zelo da verdade, e não podendo conceber que papas favoreçam a heresia, classificam esses desvios doutrinários como heresias formais e concluem que estes papas (inclusive o atual) perderam os seus cargos. Os mais extremistas acham que se deva eleger outro Papa e organizar outra hierarquia. E já o fizeram. Dizem que já foram eleitos vários papas.“Horribile dictu!!! Outros acham que a Igreja visível acabou. ( E isto já é heresia!). Alguns acham que a Igreja está sem Papa desde Pio XII. Dividem porém, sobre a causa exata e a data em que tal coisa aconteceu.
Sobre este assunto D. Marcel Lefebvre dizia: “Prefiro partir do princípio de que tem que se defender nossa fé. Este é o nosso dever. Aqui não há lugar para dúvida alguma. Conhecemos a nossa fé. Se alguém ataca nossa fé, dizemos: não! Mas daqui a dizer em seguida que, porque alguém ataca nossa fé, é herético, logo não é mais autoridade, logo seus atos não têm valor… Atenção, atenção, atenção!… Não nos metamos em um círculo infernal do qual não saberemos como sair. Nesta atitude existe um verdadeiro perigo de cisma”.
Na próxima postagem trancreveremos o artigo de D. Antônio de Castro Mayer em que nos ensinou como não devemos ser nem progressistas nem sedevacantistas: “VIGÁRIO DE CRSITO”.

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO ( I )

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Caros amigos,

Salve Maria!

Postarei na sequencia três excelentes artigos publicados no blog do Revmo Pe Élcio Murici sobre o modernismo e o sedevacantismo, sendo os dois primeiros de sua autoria e o terceiro escrito pelo Leão de Campos, Dom Antônio de Castro Mayer.

Lucas Lima

Por Padre Élcio Murici

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO (I)
Em primeiro lugar queria pedir desculpas aos meus caríssimos e amados leitores por ter demorado um pouco em escrever. Um irmão meu está  com um  sério problema de coração, e aproveito para pedir a todos,  orações por ele. E desde já fico-lhes sumamente grato por esta caridade.
    Hodiernamente temos que falar e escrever sobre doutrina cientes de estarmos numa crise dentro da Igreja. Olvidá-lo seria correr o risco de açoitar o ar. Nem muito menos podemos nos esquecer de que a Igreja é divina.
   Pois bem! Em época de crise há sempre muitos perigos e quase sempre o perigo “dos extremos”. A História da Igreja no-lo ensina. Caminhamos como sobre uma ponte estreita sem corrimão, num real perigo de cairmos tanto para um lado como para o outro. A prudência manda que em tal conjuntura, caminhemos no meio e com pé firme. Não quero com isto, de modo algum, dizer que se deva ficar sobre o muro. Não, absolutamente não!
   Quais são estes dois extremos que devemos evitar a todo custo? O Progressismo e o Sedevacantismo. E por incrível que pareça, há um caminho comum que leva a ambos: uma idéia errônea da Infalibilidade Pontifícia. Uma infalibilidade que não é a que foi definida pelo Concílio Vaticano I e por Pio IX. E só esta é que vale. Excogitar outra ou outras no intuito de querer salvar opiniões próprias, não é válido e nem legítimo.
   Há aqueles teólogos que parecem pretender corrigir um Concílio Ecumênico Dogmático. Querem ampliar os contornos definidos pelo Concílio Vaticano I. Excogitam distinções que não encontramos nas Atas deste Concílio nem nos teólogos tradicionais que as comentam. Não confiando na minha memória, consultei os  cinco Manuais de Teologia Dogmática que possuo: além de  outros manuais menores em que estudei desde o Seminário Menor.
   Há um axioma que diz: “Contra fatos não há argumentos”. Assim,  há  fatos inegáveis de leis eclesiásticas que deram azo, espaço e mesmo motivo para abusos prejudiciais à almas.  Por exemplo, a reforma litúrgica post-conciliar estabeleceu a Comunhão na mão (à escolha do comungante); a existência de ministros e ministras extraordinários da Eucaristia. Já mostramos em post anterior que a comunhão na mão favorece as profanações e consequentemente prejudica a fé dos fiéis. Os ministros e ministras da Eucaristia que dão comunhão aos doentes, e ás vezes, durante muito tempo, sem o padre atender as confissões. Já imaginaram quantos sacrilégios isto pode causar?!  Quanto a Missa quero citar o então cardeal Ratzinger, hoje nosso Santo Padre o Papa Bento XVI: “Se bem que haja numerosos motivos que possam ter levado um grande número de fiéis a encontrar refúgio na liturgia tradicional, o mais importante dentre estes motivos é que eles aí encontram preservada a dignidade do sagrado“. (sublinhados nossos). No meu bestunto entendo assim: Os fiéis tradicionalistas têm motivo para fugir da Liturgia nova porque esta não oferece segurança para se conservar a dignidade do sagrado, principalmente na Santa Missa, pois ela é o que a Igreja tem de mais sagrado. Ratzinger, quando ainda cardeal, disse que era necessário fazer uma “reforma da reforma”. Para quem quer entender é bem claro.
   Diante de fatos inegáveis de leis eclesiásticas que dão azo, espaço e mesmo motivos para abusos prejudiciais às almas, alguns concluem que o Papa não é papa. Caem no Sedevacantismo. Isto porque não admitem, que fora do campo da Infalibilidade um papa  possa prejudicar as almas com leis ambíguas.
   Outros, pelo mesmo motivo, ou seja, o papa não pode errar nunca em se tratando de leis eclesiásticas porque, além da infalibilidade positiva, existe uma outra chamada “negativa”, aliás mais abrangente do que a própria infalibilidade absoluta e positiva. Então, temos que aceitar tudo de olhos fechados. E muitos caem no Progressismo.
   Como eu disse no início, estamos em tempo de crise na Igreja. Em tempos normais não seriam necessárias estas advertências.
   Mas o próprio Código das leis eclesiásticas, isto é, o Código de Direito Canônico, cânon 212 § 3 assim reza: “Os fiéis, segundo a ciência , a competência e a proeminência de que desfrutam, têm o direito e mesmo por vezes o dever, de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas.”
  Aqui, reconhece-se o direito à liberdade de expressão e de opinião pública dentro da Igreja acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja. Não há esta liberdade quando se trata de dogmas. Fora do campo da Infalibilidade há este direito, mas deve ser exercido com toda reverência devida aos Pastores.
   Caríssimos e amados leitores, é obvio que não podemos aceitar aquela teoria dos Galicanos segundo a qual a Infalibilidade é dada à Sé Romana e não a pessoa do Papa, de tal modo que, se um papa errar em questão de fé e moral, a Providência Divina daria um dia a um outro papa o visão infalível para corrigir o que o antecessor houvesse ensinado de errado contra a fé e/ou a moral.
   Porém, nos casos em que não entra a Infalibilidade, podemos sim dizer que a Providência Divina não deixará de enviar um papa que corrija o que estiver de alguma maneira prejudicando as almas. Assim entendemos as crises que sofre a Igreja, como eclipses que passam.
   Caríssimos e amados fiéis, nos casos em que não entra a Infalibilidade, a Igreja pode, inclusive mudar de rumo. Eis um exemplo: O Papa Pio VI em 1794 condenou os jansenistas do Sínodo de Pistóia que negavam a existência do Limbo das crianças: “É falsa, temerária e injuriosa às escolas católicas a doutrina que rejeita, como se fosse fábula pelagiana, o lugar inferior (pelos fiéis geralmente chamado limbo das crianças), onde as almas dos que morrem apenas com o pecado original são punidas pela pena do detrimento sem algum tormento do fogo”.
  A Santa Igreja nos seus catecismos ensinava sempre a existência do Limbo das crianças. Mas nunca definiu como dogma. Por isso Pio VI qualifica a opinião dos jansenistas como “falsa”, “temerária” e “injuriosa”. Se se tratasse de dogma o papa teria dito que a proposição que nega o Limbo seria “herética”, e teria lançado o anátema contra seus defensores. Aqui se trata de uma conclusão teológica e que entra na alçada das leis eclesiásticas, por causa do batismo das crianças.
   Pois bem! Hoje a linguagem do Catecismo da Igreja Católica é bem diferente. Diz no nº 1261:”Quanto às crianças mortas sem o Batismo, a Igreja só pode confiá-las à misericórdia de Deus(…) A ternura de Jesus para as crianças, que o levou a dizer: Deixai as crianças virem  mim, não as impeçais” (Mc 10,14), nos permitem esperar que haja um caminho de salvação para as crianças mortas sem Batismo”.
  Há pouco tempo alguns teólogos quiseram passar na frente do Papa e foram concluindo que agora a Igreja não aceitava mais a existência do Limbo das crianças. Logo o Santo Padre o Papa Bento XVI esclareceu que a Igreja ainda não definiu nada a respeito. Mister se faz ainda muito estudo, disse ele. E muita gente já ia concluindo que não mais era necessário se preocupar com o Batismo das crianças.
   O mesmo Papa Pio VI condenou os mesmos jansenistas de Pistóia mas agora sobre questão de leis disciplinares, (que diga-se de passagem, também ainda não foi definido como dogma) diz Pio VI: ”Como se a Igreja que é governada pelo Espírito de Deus, pudesse estabelecer uma disciplina não somente inútil e mais onerosa do que a liberdade cristã pode tolerar, mas que seria ainda perigosa, nociva, própria a induzir à superstição ou ao materialismo: proposição que ele condenou como “falsa, temerária, escandalosa, perniciosa, ofensiva aos ouvidos pios, injuriosa, pelo menos errônea” (Conf. Denzinger 1578).
   D. Antônio de Castro Mayer quando estava à frente da Diocese de Campos, escreveu ao Santo Padre o Papa Paulo VI dando todos os argumentos e mostrando as falhas e ambigüidades da Missa Nova, falhas e ambigüidades estas que a tornavam prejudicial à almas. Pois bem! Se fosse algo dogmático, o Santo Padre Paulo VI teria que exigir uma retratação e caso não fosse feita, teria excomungado a D. Antônio de Castro Mayer. Mas a Santa Sé não o fez, não respondeu aos argumentos apresentados. D. Mayer continuou na Diocese de Campos.
   Pelo que eu sei, posso até estar enganado, a Santa Sé não censurou aqueles que criticam a lei eclesiástica da Comunhão na mão. Aliás o que sabemos é que o Santo Padre com muita prudência vem agindo no sentido de voltar ao costume tradicional que desperta a piedade e a fé e não dá espaço à profanações. Até hoje creio que Mons. Gherardini não tenha sido censurado pelas críticas feitas ao Concílio Vaticano II etc. etc.
    Um outro exemplo muito esclarecedor: Santo Tomás de Aquino disse na Suma Teológica que as palavras da Consagração, por sua própria natureza, devem ser ditas em voz baixa. O Concílio de Trento anatematizou os que condenam o rito que manda dizer em voz baixa as palavras da Consagração (Ses. 22,cânon 9; cf. Denzinger-Sch. 1759). Pois bem!  O Novo “Ordo” da Missa afirma justamente o contrário, ou seja, que as palavras da Consagração, por sua própria natureza (grifo nosso), devem ser ditas em voz clara e audível (Rubrica nº 91). Devemos observar em primeiro lugar que pela Filosofia aprende-se que, quando se diz “por sua própria natureza” a coisa vale para sempre e em toda parte. O que é exigido pela própria natureza de uma coisa, é independente de tempo e espaço. Quando ouço aquele tom narrativo da Consagração, não me sinto bem. E não só isto. Logo perguntamos como pode a Igreja ser sempre infalível nas suas leis se hoje adota o que ontem anatematizou. E recebemos interiormente a resposta: está provado que aí não entrou infalibilidade, mas, sendo Divina, a Igreja um dia voltará inteiramente ao rito que nunca foi abrogado e nunca poderá sê-lo. Esta nova liturgia é apenas uma eclipse que passa.
   Mas tudo que Nosso Senhor permite é para daí se tirar algum bem. Qual bem? Um amor sempre maior a Santa Missa de Sempre. A Igreja se empenhar mais em fazer o que mandou o Santo Concílio de Trento: “Conservando o rito aprovado em toda parte de cada uma das igrejas e da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas, e para que as ovelhas de Cristo não sintam fome e não suceda que os pequeninos peçam pão e não haja quem lho reparta(Lam. de Jeremias 4, 4), manda o santo Concílio aos pastores e a cada um dos que têm cura de almas, que durante a celebração da Missa expliquem freqüentes vezes por si ou por outros algo sobre o que se lê na Missa, e falem sobre algum mistério deste santíssimo sacrifício, principalmente nos domingos e festas”.
RESUMO
   Observações: 1ª –  Infalibilidade significa segurança de não haver erro nem imprudência. Isto dentro das condições definidas pela Igreja no Concílio Vaticano I.
                           2ª -  A Igreja nunca definiu que fora destas condições ela não possa errar. Normalmente não erra. Mas, sobretudo em tempo de crise, podem acontecer erros  e imprudências. E nestes casos a bússola é a Sagrada Tradição.
                            3ª – Nenhum teólogo tem direito de acrescentar, diminuir ou modificar o que foi definido pela Santa Madre Igreja.
                             4ª – Nas coisas que a Igreja ainda não definiu há lugar para os teólogos discutirem estas questões abertas, mas não podem impor sua opinião. A Igreja é a única que pode dar a palavra final. Fá-lo quando define, e aí toda língua se cale. “Roma locuta, causa finita”.
                              5ª – Seguindo estas normas não há perigo de se cair nem para um lado nem para o outro: NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO. Este será o título do próximo post, se Deus quiser.

A heresia anti-litúrgica

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Fonte: Salvem a Liturgia!

A Heresia Anti-litúrgica

Servo de Deus Dom Prosper Louis Paschal Guéranger, OSB

Abade de Solesmes

Extraído de sua obra “Institutions Liturgiques”

(Cap. XIV – Da heresia anti-litúrgica e da Reforma Protestante do séc. XVI,

considerada em sua relação com a liturgia)

1840

Tradução do francês, com consultas ao inglês,

por Luís Augusto Rodrigues Domingues

Para se dar uma ideia dos estragos da seita anti-litúrgica, parece-nos necessário resumir a marcha dos pretensos reformadores do cristianismo ao longo de três séculos, e apresentar o conjunto de suas ações e de sua doutrina sobre a purificação do culto divino. Não há espetáculo mais instrutivo e mais apropriado para se fazer compreender as causas da rápida propagação do protestantismo. Certamente aí se verá a obra de uma sabedoria diabólica agindo e levando infalivelmente a vastos resultados.

I. A primeira característica da heresia anti-litúrgica é o ódio pela Tradição nas fórmulas do culto divino. Não se pode negar esta característica especial em todos os hereges, desde Vigilâncio até Calvino, e a razão é fácil de se explicar. Todo sectário, querendo introduzir uma nova doutrina, encontra-se inevitavelmente na presença da Liturgia, que é a tradição em seu mais alto poder, e não consegue encontrar repouso até ter feito calar esta voz, até estarem rasgadas as páginas que contêm a fé dos séculos passados. Com efeito, como se estabeleceram e se mantiveram em meio às massas o luteranismo, o calvinismo e o anglicanismo? Tudo se consumou através da substituição dos livros e fórmulas antigos por livros e fórmulas novos. Nada mais incomodaria os novos doutores; poderiam pregar à vontade: a fé das gentes estava doravante sem defesas. Lutero cumpriu esta doutrina com uma sagacidade digna de nossos jansenistas, dado que no primeiro período de suas inovações, à época em que se via obrigado ainda a guardar uma parte das formas exteriores do culto latino, estabeleceu o seguinte regulamento para a Missa reformada:

“Nós aprovamos e conservamos os intróitos dos domingos e das Festas de Jesus Cristo, a saber, da Páscoa, de Pentecostes e de Natal. Nós preferiríamos de bom grado os salmos inteiros de que são tirados estes intróitos, como se fazia outrora, mas queremos bem nos conformar ao uso presente. Nem mesmo culpamos aqueles que desejam reter os intróitos dos Apóstolos, da Virgem e dos outros Santos, desde que estes três intróitos sejam tirados dos Salmos ou de outras passagens da Escritura”.

Ele tinha grande ódio dos cânticos sacros compostos pela própria Igreja para expressão pública da fé. Neles ele sentia pesado o vigor da Tradição que ele desejava banir. Reconhecendo à Igreja o direito de unir sua voz, nas santas assembleias, aos oráculos das Escrituras, ele se exporia a ouvir milhões de bocas a anatematizar os seus novos dogmas. Portanto, ódio a tudo que, na Liturgia, não era exclusivamente extraído das Sagradas Escrituras.

II. Com efeito, é o segundo princípio da seita anti-litúrgica a substituição das fórmulas de estilo eclesiástico pelas leituras da Sagrada Escritura. Ela aí encontra duas vantagens: a primeira, a de fazer calar a voz da Tradição que ela sempre teme; em seguida, um meio de propagar e de apoiar os seus dogmas, pela via da negação ou da afirmação. Pela via da negação, passando em silêncio, através de escolhas astutas, os textos que exprimem a doutrina oposta aos erros que eles querem fazer prevalecer; pela via da afirmação, pondo à luz passagens cortadas que só apresentam um lado da verdade, escondendo o outro dos olhos dos mais simples. Sabe-se, desde muitos séculos, que a preferência dada, por todos os hereges, às Sagradas Escrituras sobre as definições eclesiásticas, não tem outra razão que a facilidade que eles têm de fazer dizer pela Palavra de Deus tudo o que quiserem, apresentando-a segundo o que lhes convém. (…) Quanto aos protestantes, eles quase reduziram a Liturgia inteira à leitura da Escritura, acompanhada de discursos nos quais ela é interpretada pela razão. Quanto à escolha e à determinação dos livros canônicos, acabaram por cair no capricho do reformador, que, como último recurso, decide não somente o sentido da palavra de Deus, mas se esta palavra é verdadeira ou não. Assim, Martinho Lutero conclui, em seu sistema panteísta, que a inutilidade das obras e a suficiência da fé são dogmas a serem estabelecidos e a partir daí declara que a Carta de São Tiago é uma carta de palha, e não uma carta canônica, somente pelo fato de aí se ensinar a necessidade das obras para a salvação. Em todos os tempos e sob todas as formas, funcionará sempre do mesmo jeito: nada de fórmulas eclesiásticas, somente a Escritura, mas interpretada, escolhida e apresentada por aquele ou por aqueles que sabem tirar proveito para a inovação. A armadilha é perigosa para os simples, e somente depois de um longo tempo é que se percebe o engano em que se caiu, e que a palavra de Deus, esta espada de dois gumes, como diz o Apóstolo, abriu grandes feridas, pois foi manuseada pelos filhos da perdição.

III. O terceiro princípio dos hereges acerca da reforma da Liturgia é, digamos, depois de ter expulsado as fórmulas eclesiásticas e proclamado a necessidade absoluta de se empregar apenas as palavras da Escritura no serviço divino, visto que a Escritura nem sempre se dobra, como eles gostariam, a todas as suas vontades, fabricar e introduzir fórmulas novas, cheias de perfídia, pelas quais as pessoas sejam mais solidamente ainda acorrentadas ao erro, e todo o edifício da ímpia reforma venha a se consolidar pelos séculos.

IV. Alguém poderá se admirar da contradição que a heresia apresenta em suas obras, quando vier a saber que o quarto princípio, ou, se assim se desejar, a quarta necessidade imposta aos sectários pela própria natureza de seu estado de revolta, é uma habitual contradição frente aos seus próprios princípios. Deverá ser assim, para a confusão deles, naquele grande dia, que cedo ou tarde vem, quando Deus revelar a nudez deles à vista dos povos que foram por eles seduzidos, e também porque não é da natureza do homem ser coerente, consistente. Somente a verdade pode sê-lo. Por isso, todos os sectários, sem exceção, começam por reivindicar as prerrogativas da antiguidade. Eles querem abstrair o cristianismo de tudo o que o erro e as paixões dos homens nele misturaram de falso ou de indigno de Deus; tudo o que querem é o que é primitivo, e pretendem fazer voltar ao berço a instituição cristã. Para isto, eles podam, cortam e arrancam; tudo cai sob os seus golpes, e quando alguém esperar ver reaparecer em sua pureza primeva o culto divino, encontrar-se-á coberto de fórmulas novas que mal datam de ontem e que são incontestavelmente humanas, posto que aqueles que as redigiram ainda vivem. Toda seita sofreu esta necessidade; vimos isto nos Monofisitas, nos Nestorianos; reencontramos a mesma coisa em todos os ramos do protestantismo. Sua afetação ao pregar a antiguidade é a medida usada para fazer sumir diante de si todo o passado, e assim se põem diante do povo seduzido e lhe juram que tudo está muito bem, que o aparato papista supérfluo foi-se embora, que o culto divino retornou à sua santidade primitiva. Observemos ainda uma coisa característica na mudança da Liturgia por parte dos hereges. É que, em sua sanha inovadora, eles não se contentam em retirar as fórmulas de estilo eclesiástico, que eles menosprezam sob o nome de palavra humana, mas estendem sua rejeição até mesmo às leituras e orações que a Igreja tomou emprestadas da Escritura. Mudam-nas, substituem-nas. Não querem mais rezar com a Igreja. Excomungam, por isso, a si mesmos, e temem assim a menor parcela da ortodoxia que ordenou a escolha daquelas passagens.

V. Sendo a reforma da Liturgia realizada pelos sectários com o mesmo objetivo que a reforma do dogma, de que é consequência, segue-se que, assim como os protestantes se separaram da unidade para crer menos, eles são levados a subtrair do culto todas as cerimônias e todas as fórmulas que exprimem mistérios. Tacharam de superstição e de idolatria tudo o que não lhes pareceu puramente racional, restringindo assim as expressões da fé e obstruindo, pela dúvida e até pela negação, todas as vias que se abrem para o mundo sobrenatural. Por isso, nada mais de sacramentos, a não ser o Batismo, à espera do Socinianismo que o deixaria ao arbítrio de seus adeptos; nada de sacramentais, bênçãos, imagens, relíquias de santos, procissões, peregrinações, etc. Nada também de altar, mas simplesmente uma mesa; nada de sacrifício, como em toda religião, mas simplesmente uma ceia; nada de igreja, mas só um templo, como nos Gregos e Romanos; nada mais de arquitetura religiosa, dado que aí não há mistérios; nada de pintura ou escultura cristãs, dado que aí não há uma religião sensível; enfim, nada de poesia, num culto que não foi fecundado nem pelo amor e nem pela fé.

VI. A supressão das coisas misteriosas na Liturgia protestante produziu infalivelmente a extinção total do espírito de oração que se chama de Unção no Catolicismo. Um coração revoltado não tem amor, e um coração sem amor no máximo poderá gerar expressões de respeito ou de temor, com aquele frio orgulho farisaico. Tal é a Liturgia protestante. Sente-se que aquele que a reza aplaude a si mesmo por não ser contado no número dos cristãos papistas, que trazem Deus até a sua baixeza pela familiaridade de seu linguajar vulgar.

VII. Tratando nobremente com Deus, a liturgia protestante não tem necessidade de intermediários criados. Ela creria faltar com o respeito devido ao Ser soberano ao invocar a intercessão da Santa Virgem, a proteção dos santos. Ela exclui toda esta idolatria papista que roga à criatura aquilo que se deve rogar a Deus somente. Ela remove do calendário todos os nomes dos homens que a Igreja temerariamente inscreveu ao lado do nome de Deus. Ela tem, sobretudo, um horror àqueles monges e outros personagens dos tempos passados que aí se vê figurar ao lado dos veneráveis nomes dos apóstolos que Jesus Cristo escolheu, e pelos quais foi fundada a Igreja primitiva, a única que foi pura na fé e livre de toda superstição no culto e de todo relaxamento na moral.

VIII. Tendo, a reforma litúrgica, como um de seus principais fins a abolição dos atos e fórmulas místicas, segue-se necessariamente que seus autores devam reivindicar o uso da língua vulgar no serviço divino. Por isso, este é um dos pontos mais importantes aos olhos dos sectários. O culto não é algo secreto, dizem; é preciso que o povo entenda o que canta. O ódio à língua latina é inato ao coração de todos os inimigos de Roma. Nela eles vêem o elo entre os católicos de todo o universo, o arsenal da ortodoxia contra todas as sutilezas do espírito das seitas, a arma mais poderosa do Papado. O espírito da revolta que os leva a confiar a oração universal ao idioma de cada povo, de cada província, de cada século, já deu seus frutos, e os reformados estão diariamente a perceber que os povos católicos, não obstante suas orações latinas, têm mais gosto e cumprem com mais zelo os deveres do culto que os povos protestantes. A cada hora do dia, o serviço divino tem lugar nas igrejas católicas; o fiel que aí participa deixa sua língua mãe na porta; com exceção das horas de pregação, ele só ouve os misteriosos acentos [do latim], que até cessam de ressoar no momento mais solene, no Cânon da Missa; e, contudo, este mistério o encanta de tal forma que não inveja a sorte do protestante, embora o ouvido deste último nunca escute um som sem perceber seu significado. Enquanto o Templo Reformado reúne, com grande dificuldade, uma vez por semana, os cristãos puristas, a Igreja Papista vê incessantemente os seus numerosos altares cercados pelos seus filhos religiosos. Cada dia eles deixam seus trabalhos para ouvir as palavras misteriosas que devem ser de Deus, pois elas alimentam a fé e aliviam as dores. Admitamos: é um golpe de mestre do protestantismo o ter declarado guerra à língua sagrada; se conseguir êxito em a destruir, seu triunfo já estará bem avançado. Entregue aos gostos profanos, como uma virgem desonrada, a Liturgia, a partir deste momento, perdeu seu caráter sagrado, e o povo logo achará que não vale a pena deixar os trabalhos ou os prazeres para ir até aí e ouvir alguém falar como qualquer um fala na praça pública. (…)

IX – Tirando da Liturgia o mistério, que rebaixa a razão, o protestantismo tem o cuidado de não esquecer a consequência prática, ou seja, a libertação da fadiga e do desconforto que as práticas da Liturgia Papista impõem ao corpo. Primeiramente, nada mais de jejum e de abstinência; nada de genuflexão para rezar; para o ministro do templo, nada mais de ofícios diários a serem cumpridos, nem mesmo preces canônicas para se recitar em nome da Igreja. Tal é uma das formas principais da grande emancipação protestante: diminuir a quantidade de orações públicas e particulares. O decorrer dos fatos tem mostrado rapidamente que a fé e a caridade, que se alimentam da oração, foram sendo extintas na Reforma, enquanto elas não cessam, entre os católicos, de alimentar todos os atos de devoção a Deus e aos homens, fecundados que são pelas fontes inefáveis da oração litúrgica, realizada pelo clero secular ou regular, ao qual se une a comunidade dos fieis.

X – Como falta ao protestantismo uma regra para discernir entre as instituições papistas quais as que poderiam ser as mais hostis aos seus princípios, foi-lhe preciso cavar até os fundamentos do edifício católico, e encontrar a pedra fundamental que sustenta tudo. Seu instinto fez descobrir tudo que segue este dogma que é inconciliável com toda inovação: o poder Papal. Daí Lutero ter escrito em seu estandarte: “Ódio a Roma e às suas leis”. Ele não fazia nada mais que proclamar uma vez por todas o grande princípio de todos os ramos da seita anti-litúrgica. Daqui vem a necessidade de abrogar em massa o culto e as cerimônias, como idolatria de Roma; a língua latina, o ofício divino, o calendário, o breviário, todas as abominações da grande Prostituta da Babilônia. O Romano Pontífice oprime a razão pelos seus dogmas e os sentidos pelas suas práticas rituais; é preciso proclamar que os dogmas não passam de blasfêmia e erro, e suas observâncias litúrgicas, um meio de assegurar mais fortemente uma dominação usurpada e tirânica. Eis por que, em suas ladainhas emancipadas, a Igreja luterana continua a cantar inocentemente: “Do furor homicida, da calúnia, da ira e da ferocidade do Turco e do Papa, livrai-nos, Senhor”. Cabe aqui recordar as admiráveis considerações de Joseph de Maistre, em seu livro “Sobre o Papa”, onde ele mostra, com tamanha sagacidade e profundidade, que, não obstante as dissonâncias que isolam as diversas seitas separadas umas das outras, há uma característica que reúne todas elas: a de serem não-Romanas. Imaginai uma inovação qualquer, seja em matéria de dogma, seja em matéria de disciplina, e vereis se é possível empreendê-la sem incorrer, queira ou não queira, no apelido de não-Romana, ou se quiserdes, de meio Romana, se falta audácia. Resta saber que tipo de descanso poderá encontrar um católico seja na primeira ou na segunda das duas situações.

XI – A heresia anti-litúrgica, para estabelecer para sempre o seu reinado, tem necessidade de destruir de fato e de princípio todo o sacerdócio no cristianismo, pois ela sente que, onde há um pontífice, há um altar, e aí onde há um altar, há um sacrifício e, portanto, um cerimonial misterioso. Depois de ter abolido a qualidade de Sumo Pontífice, é preciso aniquilar o caráter episcopal, donde emana a mística imposição das mãos que perpetua a hierarquia sagrada. Resulta daí um vasto presbiterianismo, que é exatamente a consequência imediata da supressão do soberano Pontificado. Daí, não há mais um padre propriamente dito. Como a simples eleição, sem uma consagração, fará dele um homem sagrado? A reforma de Lutero e de Calvino não conhecerá outra coisa senão Ministros de Deus, ou dos homens, como se queira. Mas é impossível ficar só nisso. Escolhido e empossado por leigos, portando no templo uma toga de alguma bastarda magistratura, o ministro não passa de um leigo revestido de funções acidentais; não há nada mais que leigos no protestantismo. E assim deve ser, posto que não há mais Liturgia. Bem como não há mais Liturgia, posto que não há nada mais que leigos.

XII – Por fim, no último degrau de embrutecimento, não existindo mais o sacerdócio, dado que a hierarquia está morta, o príncipe, única autoridade possível entre leigos, proclamar-se-á chefe da Religião, e se verá os mais orgulhosos reformadores, depois de ter lançado fora o jugo espiritual de Roma, reconhecerem o soberano temporal como sumo pontífice, e colocarem o poder sobre a Liturgia entre as atribuições de direito majestático. Não mais haverá dogma, moral, sacramentos, culto e cristianismo, a não ser que agrade ao príncipe, dado que o poder absoluto lhe foi entregue sobre a Liturgia, pela qual todas aquelas coisas têm sua expressão e sua aplicação na comunidade de fieis. Tal é, portanto, o axioma fundamental da Reforma, na prática e nos escritos dos doutores protestantes. Este último traço completará o quadro, e permitirá ao próprio leitor julgar sobre a natureza desta pretensa libertação, operada com tanta violência no que tange ao papado, para estabelecer, em seguida, porém necessariamente, uma destrutiva dominação sobre a própria natureza do cristianismo. É verdade que, no começo, a seita anti-litúrgica não tinha o costume de bajular os poderosos: albigenses, valdenses, wycliffitas, hussitas, todos ensinaram que era preciso resistir e mesmo atacar todos os príncipes e magistrados que se encontrassem em estado de pecado, pretendendo que um príncipe perdia o direito no momento em que não estivesse mais na graça de Deus. A razão disso é que os sectários temiam a espada dos príncipes católicos, bispos de fora, tendo tudo a ganhar minando sua autoridade. Mas a partir do momento em que os soberanos, associados à revolta contra a Igreja, quiseram fazer da religião uma coisa nacional, um meio de governo, a Liturgia, bem como o dogma, reduzida aos limites de um país, ficou submetida naturalmente à mais alta autoridade do país, e os reformadores não tinham como deixar de prestar um vivo reconhecimento àqueles que davam, assim, o auxílio de um braço poderoso para estabelecer e conservar suas teorias. É bem verdade que aí há toda uma apostasia nesta preferência dada ao temporal sobre o espiritual, em matéria de religião; mas agem assim pela necessidade de se manter. Precisam não só ser consistentes, mas sobreviver. É por isso que Lutero, que se separou brilhantemente do Pontífice Romano, este considerado como fautor de todas as abominações da Babilônia, não teve vergonha de si mesmo ao declarar teologicamente legítimo um duplo casamento para o landgrave de Hesse, e é por isso também que o Abade Gregório encontrou em seus princípios o meio de associar, de uma vez, a Convenção inteira no voto de execução contra Luís XVI, e de se fazer o defensor de Luís XIV e de José II contra os pontífices romanos.

Tais são as principais máximas da seita anti-litúrgica. De modo algum estão exageradas. Apenas enfatizamos a doutrina centenas de vezes professada nos escritos de Lutero, de Calvino, dos Centuriadores de Magdeburgo, de Hospiniano, de Kemnitz, etc. Estes livros são fáceis de consultar, ou melhor, a obra que resultou daí está sob os olhos de todo o mundo. Cremos ter sido útil pôr à luz estas principais características. Sempre é bom ter conhecimento acerca do que é errado. O conhecimento prático e direto é, às vezes, menos vantajoso e menos fácil.

Cabe aos pensadores católicos tirar a conclusão.

A infalibilidade: Os decretos disciplinares e as leis litúrgicas

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Por Pe Élcio Murici

     Já mostramos que a Santa Igreja é infalível quando define solenemente verdades por si reveladas, isto é, verdades de fé e moral contidas formalmente no depósito da Revelação. Estas verdades constituem o objeto direto e primário da Infalibilidade.
   Mas existem outras verdades que não foram formalmente reveladas. Elas têm, entretanto, um nexo tão íntimo com a Revelação, que são necessárias para que o depósito da fé seja conservado íntegro, seja devidamente explicado e seja eficazmente definido. Entre estas verdades estão os Decretos Disciplinares e as Leis Litúrgicas. Estão entre os objetos indiretos e secundários da Infalibilidade.
   Esta tese assim globalmente considerada, não é de fé. Isto significa que quem a negar não é herege. Mas é uma tese “teologicamente certa”. Quem a negar é “temerário”.
INTRODUÇÃO: ALGUMAS EXPLICAÇÕES PRELIMINARES:
   1º)  Uma lei litúrgica só envolve infalibilidade quando, considerados o seu conteúdo e as suas circunstâncias, torna-se claro que ela contém uma definição infalível, isto é, que a Igreja quis servir-se deste meio para ensinar infalivelmente uma verdade. Portanto, os textos litúrgicos só envolvem a infalibilidade quando preenchem determinadas condições bem definidas e precisas.
   Vejamos, então, embora resumidamente, quais são estas condições:
   A) A Infalibilidade só se refere a leis e decretos promulgados para aIgreja Universal. Quando dizemos para a igreja universal, queremos significar para todo o “rito latino” que é próprio da Sé Romana, cabeça de todas as igrejas. Existe também o “rito oriental católico”.
   B) A Infalibilidade só atinge os assuntos de fé e moral.
   C) Trata-se somente da infalibilidade da doutrina explícita ou implicitamente contida em tudo quanto a lei prescreve: atos, palavras atitudes etc. Ou no terreno estritamente litúrgico: orações, cerimônias, rubricas, gestos, objetos etc.
   Não há infalibilidade sobre a oportunidade ou conveniência da lei. Dizem quandes teólogos, como Hervé, Tanquerey, Wernz e Vidal que, quanto a aspectos prudenciais, podem haver erros nas leis eclesiásticas universais.
   Diz o teólogo Hervé (adotado no nosso Seminário): “A Infalibilidade quanto as coisas disciplinares não parece por si exigir que a Igreja sempre atinja o sumo grau de prudência”.
   Tanquerey diz: “Esta Infalibilidade consiste em que a Igreja num juízo doutrinal nunca possa estabelecer uma lei universal, que seja contrária a fé (isto é, herética) e aos bons costumes e a salvação das almas (isto é, uma lei escandalosa, pecaminosa e herética também) … “no entanto, em lugar algum foi prometido a Igreja um sumo grau de prudência para promulgar as melhores leis para todos os tempos, lugares e circunstâncias”.
   Nota: Este sumo grau de prudência, ou seja, uma prudência heróica, vem da santidade, como explica o Papa Pio XII ao falar de São Pio X. Portanto, feliz o povo que tem um papa santo!!!
   O célebre teólogo jesuíta o Padre Goupil diz o seguinte: “Embora, distinguindo os diversos graus de certeza, aceitar-se-á filialmente os costumes piedosos e as tradições que aprova, e ter-se-á outrossim a disposição de corrigir os erros que aí possam ser encontrados.” (evidentemente onde a Igreja não empenha a sua Infalibilidade). Nós podemos acrescentar que aqui tem lugar a lei da Igreja no cânon 212.
   Um exemplo: Quanto à Missa de Paulo VI, que é chamada de Missa Nova, D. Antônio de Castro Mayer dizia o seguinte: Não podemos dizer que é inválida, porque, para isso acontecer o papa teria que alterar substancialmente a matéria e/ou a forma do sacramento e do Sacrifício da Santa Missa. Neste ponto o Papa é infalível. Ele não pode mudar o que é de fé divina e/ou definida. Também, dizia ele, não podemos dizer que é herética pelos mesmos motivos, ou seja, aí entra a Infalibilidade. O Papa não pode impor a toda Igreja uma coisa que seja heresia. D. Antônio de Castro Mayer dizia que, pelas suas ambiguidades, a Missa Nova deu azo a que os inimigos internos (os modernistas) e os inimigos externos (os protestantes) dessem interpretações heterodoxas. E ele faz o paralelo com a atitude do Papa Honório I que, com relação a defesa da verdade contra os monotelitas, foi ambíguo e negligente, e consequentemente por isso, foi terrivelmente imprudente. Foi favorecedor da heresia, como tal, foi condenado pelo Papa São Leão II. Honório não ensinou a heresia, mas a favoreceu pela sua negligência. O mesmo aconteceu com a Missa Nova de Paulo VI.
   Gostaria de citar aqui o cardeal Gagnon: “Não se pode entretanto ignorar que a reforma (litúrgica) deu origem (sublinhado nosso) a muitos abusos e conduziu em certa medida ao desaparecimento do respeito devido ao sagrado. Esse fato deve ser infelizmente admitido e desculpa bom número dessas pessoas que se afastaram de nossa Igreja ou de sua antiga comunidade paroquial”. É preciso lembrar que o ponto central da Reforma Litúrgica querida pelo Vaticano II foi justamente uma nova Missa. E quando dizemos Missa Nova, devemos entender todas as outras novidades que estão ligadas a ela, como por exemplo a comunhão na mão, o altar em forma de mesa e voltado para o povo, os ministros e ministras da Euccaristia etc., etc.
  É preciso notar também que este cardeal Gagnon não está sozinho. Muitos outros afirmam mais ou menos , o mesmo. E mais importante ainda é o fato de a Santa Sé não os ter censurado por suas afirmações. Pelo contrário.
   Caríssimos e amados leitores, não é amor a Santa Madre Igreja, querer tapar o sol com a peneira ou voluntariamente fechar os olhos. Oh! como é triste a gente constatar que autoridades da Igreja têm os olhos e ouvidos bem abertos para se defenderem de ofensas pessoais e, no entanto, se fazem cegos e surdos voluntários diante das ofensas que são feitas a Nosso Senhor Jesus Cristo!!!
   Depois destes parênteses, continuemos apresentando as condições para que as Leis Litúrgicas sejam infalíveis:
   D) A quarta condição é importantíssima porque dada por Pio IX, hoje beato. Podemos chamá-lo “O Papa da Infalibilidade”. Guardai bem o que ele diz quando definiu o dogma da Imaculada Conceição de Maria Santíssima: “O que pertence ao culto está absoluta e intimamente ligado com o objeto deste, e não pode tornar-se RATIFICADO E FIXO (grifos nossos) se este objeto for DUVIDOSO E AMBÍGUO” (grifo nosso).
   Pio IX está falando de um culto universal. Mas mesmo sendo universal este culto não poderá ser ratificado e fixo (o que significa ser proposto infalivelmente), enquanto o seu objeto, no terreno dogmático, for duvidoso e ambíguo. Eis a explicação que deste texto de Pio IX, dá o célebre teólogo jesuíta o Revmo. Padre Manuel Pinto: “Importa, pois, muito saber distinguir o que é que no culto (=liturgia) se pode dizer“ratificado e fixo”ou, por outra, propriamente “lei de oração”.
   Com base em dois documentos de São Pio V, o Revmo. Padre Manuel Pinto, S.J. observa: “Liturgias particulares que se mantiveram duzentos anos em comunhão com Roma, não deve facilmente presumir-se que contenham erros de fé e costumes”.
   Nós observamos: Se Leis particulares que se mantiveram duzentos anos em comunhão com Roma, não foram abrogadas por São Pio V (quando canonizou o Missa de Sempre), quanto mais as leis universais com muitos séculos de Tradição como é a Missa canonizada por ele mesmo, São Pio V. Por isso que o Santo Padre Bento XVI, gloriosamente reinante, disse que a Missa de São Pio V nunca foi anulada. Hoje, depois de 30 anos, digo: na época de D. Navarro nós tradicionalistas éramos felizes. Felizes por sofrermos pela Verdade, ou seja, por amor a Jesus. Não por nossos merecimentos, mas unicamente pela misericórdia e graça divinas.
E) Quinta condição para que as leis litúrgicas sejam infalíveis: outro indicativo de infalibilidade é quando certas verdades expressas pelo culto público vão aumentando ininterruptamente sua autoridade à medida que os doutores da Igreja as vão corroborando com mais interesse e que elas vão penetrando na persuasão dos fiéis. 
   Nota: constatamos com clareza que é justamente o contrário que se dá com relação a Reforma Litúrgica do Concílio Vaticano II. E isto apesar de os modernistas serem ainda maioria na Igreja.
F) Esta sexta condição para que as leis litúrgicas sejam infalíveis, compõe-se de três regras importantíssimas. Como aquilo que, na liturgia, o Magistério da Igreja propõe à adesão dos fiéis e estes aceitam, é proposto com grau de autoridade dogmática diversíssimo conforme os casos, então devem-se seguir três regras a saber:
1ª REGRA: (geral) “O fiel deve dar a cada proposição do magistério uma adesão do grau e da natureza – nem mais nem menos – que o magistério dele exige”.
2ª REGRA: “Praticamente, só mediante o estudo teológico completo de cada uma das questões se pode determinar o grau autoritativo de qualquer ponto da liturgia, tanto histórica quanto atual”. 
3ª REGRA: “Para poder arguir com absoluta certeza que uma doutrina é proposta pela Igreja como de fé divina e católica apenas pelo Magistério ordinário e universal, não basta mostrar que, no propor tal doutrina, existe unanimidade moral entre os bispos unidos com o Romano Pontífice, mas é necessário provar que eles, a propõemprecisamente como de fé. A unanimidade moral deve versar sobre o fato de ser essa doutrina proposta como de fé.”(Teólogo Pe. Vagaggini).

EXEMPLOS: Seguindo estas três regras, podemos dar um exemplo de infalibilidade na liturgia: o Cânon da Missa de São Pio V; e podemos dar um exemplo de não infalibilidade : os textos da Missa Mova, enquanto tais e tomados na sua totalidade.
1º exemplo: O Cânon da Missa de São Pio V foi definido como dogma pelo Concílio de Trento. Pois, como explica o Catecismo do Concílio de Trento II, IV, § 19 -24, todo o Cânon da Missa de São Pio V é tirado das duas fontes da Revelação, ou seja, da Tradição e da Sagrada Escritura.
NOTAS: O arranjo atual das orações que formam o Cânon vem do tempo do Papa São Gregório Magno, ano 600. Mas São Gregório já encontrou o cânon praticamente formado. O que São Gregório fez, foi confirmá-lo e fixá-lo, dando-lhe assim um cunho oficial.
A ausência de São José no Cânon é mais uma demonstração da antiguidade desta parte invariável e intocável da Santa Missa de São Pio V. É, pois sabido que o culto dos santos-mártires precedeu o culto dos santos-confessores. Este foi uma consequência do culto dos santos-mártires. No Cânon há duas listas dos santos-mártires; uma antes da Consagração, e outra depois da Consagração. Logo no início da lista dos santos-mártires está a Gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Os títulos que aí a acompanham estão mostrando porque Maria Santíssima deve ser invocada no Cânon, e em primeiro lugar. E, outrossim, Maria Santíssima é Corredentora; é Rainha dos Mártires. Esteve ao pé da Cruz de Seu Divino Filho oferecendo-O e também oferecendo seu Coração Imaculado para ser transpassado por aquela espada de dor predita pelo velho Simeão. São José com certeza, morreu antes de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Santa Igreja declarou-o patrono da boa morte porque foi assistido pelo próprio Jesus e pela Santíssima Virgem Maria. Outra prova: Jesus ante de morrer entregou Nossa Senhora a São João que a levou para sua casa. “Eis aí a tua Mãe; eis aí o teu filho”.
Vou contar-vos um fato histórico muito significativo: Quando em 1847 o Papa Pio IX, hoje beato, declarou São José, padroeiro da Santa Igreja Universal, os bispos da Santa Madre Igreja pediram a ele para aproveitar e introduzir São José no Cânon da Missa. Pio IX respondeu taxativamente: “Não, porque o Cânon é intocável”. Na verdade, São Pio V apenas canonizou as cerimônias e orações da Santa Missa; ele não inovou nada. Por isso não introduziu São José no Cânon. É claro que teologicamente seria possível, porque seria um acréscimo que não afetaria em nada a substância do Cânon. São Pio V e o Bem-aventurado Pio IX, porém, acharam por bem não modificar em nada o que vinha desde os primeiros séculos.
Foi o Papa João XXIII, beato, que introduziu São José no Cânon. É claro que o fez com a melhor das intenções. Mas, na época, lembro-me que alguns progressistas (cardeais, bispos e padres) se alegraram dizendo que “agora o Cânon não é mais intocável!!!” Nós dizemos na Filosofia: “Quidquid recipitur, ad modum recpipientis recipitur”. O que é recebido, é recebido a modo do recipiente. Aliás, constantamo-lo nos comentários dos blogs. Quanta diversidade!!!

Vamos ver agora o exemplo de não Infalibilidade: os textos da Missa Nova, enquanto tais e tomados na sua totalidade. Num discurso que o Papa Paulo VI fez no dia 19 de novembro de 1969, referindo-se à Missa Nova, ele diz: “O rito e a respectiva rubrica por si NÃO SÃO UMA DEFINIÇÃO DOGMÁTICA; SÃO SUSCEPTÍVEIS DE UMA QUALIFICAÇÃO TEOLÓGICA DE VALOR DIVERSO, segundo o contexto litúrgico a que se referem…” (grifos nossos).
   Portanto, se o próprio Papa Paulo VI declarou explicitamente que os ritos e as rubricas da nova Missa “são susceptíveis de uma qualificação teológica de valor diverso, não parece ser possível sustentar que os textos do novo Missal, enquanto tais e tomados na sua totalidade, envolvam a Infalibilidade da  Igreja.
Portanto, pelo cânon 212 temos o direito e até o dever de mostrar as falhas, omissões, ambigüidades e “sombras” do “Novus Ordo Missae”.
Ninguém, nem os bispos todos, podem exigir de nós o que o Santo Padre o Papa não exigiu e não exige.
Podemos dizer que a situação atual na Igreja é a seguinte: Vira progressista quem quiser; e vira sedevacantista também só quem quiser. Deus nos livre de ambas estas coisas!!!

As Duas Colunas; a Eucaristia e a Devoção à Santíssima Virgem —1862

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Fonte: Os Sonhos de João Bosco

Em 26 de maio de 1862 (São) João Dom Bosco tinha prometido a seus jovens que lhes narraria algo muito agradável nos últimos dias do mês.

Em 30 de maio, pois, de noite contou-lhes uma parábola ou sonho segundo ele quis denominá-la.

Eis aqui suas palavras:

“Quero-lhes contar um sonho. É certo que o que sonha não raciocina; contudo, eu que contaria a Vós até meus pecados se não temesse que saíssem fugindo assustados, ou que caísse a casa, este o vou contar para seu bem espiritual. Este sonho o tive faz alguns dias.

Figurem-se que estão comigo junto à praia, ou melhor, sobre um escolho isolado, do qual não vêem mais terra que a que têm debaixo dos pés. Em toda aquela vasta superfície líquida via-se uma multidão incontável de naves dispostas em ordem de batalha, cujas proas terminavam em um afiado esporão de ferro em forma de lança que fere e transpassa todo aquilo contra o qual arremete. Estas naves estão armadas de canhões, carregadas de fuzis e de armas de diferentes classes; de material incendiário e também de livros, e dirigem-se contra outra nave muito maior e mais alta, tentando cravar-lhe o esporão, incendiá-la ou ao menos fazer-lhe o maior dano possível.

A esta majestosa nave, provida de tudo, fazem escolta numerosas navezinhas que dela recebiam as ordens, realizando as oportunas manobras para defender-se da frota inimiga. O vento lhes era adverso e a agitação do mar parece favorecer aos inimigos.

Em meio da imensidão do mar levantam-se, sobre as ondas, duas robustas colunas, muito altas, pouco distantes a uma da outra. Sobre uma delas está a estátua da Virgem Imaculada, a cujos pés vê-se um amplo cartaz com esta inscrição: Auxilium Christianorum.(Auxilio dos Cristãos)
Sobre a outra coluna, que é muito mais alta e mais grossa, há uma Hóstia de tamanho proporcionado ao pedestal e debaixo dela outro cartaz com estas palavras: Salus credentium.(Salvação dos crentes)

O comandante supremo da nave maior, que é o Romano Pontífice, ao perceber o furor dos inimigos e a situação difícil em que se encontram seus fieis, pensa em convocar a seu redor aos pilotos das naves ajudantes para celebrar conselho e decidir a conduta a seguir. Todos os pilotos sobem à nave capitaneada e congregam-se ao redor do Papa. Celebram conselho; mas ao ver que o vento aumenta cada vez mais e que a tempestade é cada vez mais violenta, são enviados a tomar novamente o mando de suas respectivas naves.

Restabelecida por um momento a calma, O Papa reúne pela segunda vez aos pilotos, enquanto a nave capitã continua seu curso; mas a borrasca torna-se novamente espantosa.

O Pontífice empunha o leme e todos seus esforços vão encaminhados a dirigir a nave para o espaço existente entre aquelas duas colunas, de cuja parte superior pendem numerosas âncoras e grosas argolas unidas a robustas cadeias.

As naves inimigas dispõem-se todas a assaltá-la, fazendo o possível por deter sua marcha e por afundá-la. Umas com os escritos, outras com os livros, outras com materiais incendiários dos que contam em grande abundância, materiais que tentam arrojar a bordo; outras com os canhões, com os fuzis, com os esporões: o combate torna-se cada vez mais encarniçado. As proas inimigas chocam-se contra ela violentamente, mas seus esforços e seu ímpeto resultam inúteis. Em vão reatam o ataque e gastam energias e munições: a gigantesca nave prossegue segura e serena seu caminho.

Às vezes acontece que por efeito dos ataques de que lhe são objeto, mostra em seus flancos uma larga e profunda fenda; mas logo que produzido o dano, sopra um vento suave das duas colunas e as vias de água fecham-se e as fendas desaparecem.

Disparam enquanto isso os canhões dos assaltantes, e ao fazê-lo arrebentam, rompem-se os fuzis, o mesmo que as demais armas e esporões. Muitas naves destroem-se e afundam no mar. Então, os inimigos, acesos de furor começam a lutar empregando a armas curtas, as mãos, os punhos, as injúrias, as blasfêmias, maldições, e assim continua o combate.

Quando eis aqui que o Papa cai ferido gravemente. Imediatamente os que lhe acompanham vão a ajudar-lhe e o levantam. O Pontífice é ferido uma segunda vez, cai novamente e morre. Um grito de vitória e de alegria ressoa entre os inimigos; sobre as cobertas de suas naves reina um júbilo inexprimível. Mas apenas morto o Pontífice, outro ocupa o posto vacante. Os pilotos reunidos o escolheram imediatamente; de sorte que a notícia da morte do Papa chega com o da eleição de seu sucessor. Os inimigos começam a desanimar-se.

O novo Pontífice, vencendo e superando todos os obstáculos, guia a nave em volta das duas colunas, e ao chegar ao espaço compreendido entre ambas, a amarra com uma cadeia que pende da proa uma âncora da coluna que ostenta a Hóstia; e com outra cadeia que pende da popa a sujeita da parte oposta a outra âncora pendurada da coluna que serve de pedestal à Virgem Imaculada. Então produz-se uma grande confusão. Todas as naves que até aquele momento tinham lutado contra a embarcação capitaneada pelo Papa, dão-se à fuga, dispersam-se, chocam entre si e destroem-se mutuamente. Umas ao afundar-se procuram afundar às demais. Outras navezinhas que combateram valorosamente às ordens do Papa, são as primeiras em chegar às colunas onde ficam amarradas.

Outras naves, que por medo ao combate retiraram-se e que se encontram muito distantes, continuam observando prudentemente os acontecimentos, até que, ao desaparecer nos abismos do mar os restos das naves destruídas, remam rapidamente em volta das duas colunas, e chegando às quais se amarram aos ganchos de ferro pendentes das mesmas e ali permanecem tranqüilas e seguras, em companhia da nave capitã ocupada pelo Papa. No mar reina uma calma absoluta.”

Ao chegar a este ponto do relato, (São) João Dom Bosco perguntou ao (Beato) Miguel Dom Rúa:

— O que pensas desta narração?

O (Beato) Miguel Dom Rúa respondeu:

— Parece-me que a nave do Papa é a Igreja da qual ele é a Cabeça: as outras naves representam aos homens e o mar ao mundo. Os que defendem à embarcação do Pontífice são os fieis à Santa Se; os outros, seus inimigos, que com toda sorte de armas tentam aniquilá-la. As duas colunas salvadoras parece-me que são a devoção a María Santíssima e ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

O (Beato) Miguel Dom Rúa não fez referência ao Papa cansado e morto e (São) João Dom Bosco nada disse tampouco sobre este particular. Somente acrescentou:

— Hás dito bem. Somente terei que corrigir uma expressão. As naves dos inimigos são as perseguições. Preparam-se dias difíceis para a Igreja. O que até agora aconteceu (na história da Igreja) é quase nada em comparação ao que tem de acontecer. Os inimigos da Igreja estão representados pelas naves que tentam afundar a nave principal e aniquilá-la se pudessem. Só ficam dois meios para salvar-se dentro de tanto desconcerto! Devoção a Maria. Freqüência dos Sacramentos: Comunhão freqüente, empregando todos os recursos para praticá-la nós e para fazê-la praticar a outros sempre e em todo momento. Boa noite!

As conjecturas que fizeram os jovens sobre este sonho foram muitíssimas, especialmente no referente ao Papa; mas (São) João Dom Bosco não acrescentou nenhuma outra explicação.

Quarenta e oito anos depois — em 1907 — um antigo aluno, cônego Dom João Ma. Bourlot recordava perfeitamente as palavras de (São) João Dom Bosco.

Temos que concluir dizendo que muitos consideraram este sonho como uma verdadeira visão ou profecia, embora (São) João Dom Bosco ao narrá-lo parece que não se propôs outra coisa que, induzir aos jovens a rezar pela Igreja e pelo Sumo Pontífice inculcando-lhes ao mesmo tempo a devoção ao Santíssimo Sacramento e a Maria Santíssima.
(M. B. Volume VII, págs. 169-171)

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Atravessamos o momento mais crítico da história da Igreja. Após séculos de ataques diretos contra a Esposa do Cordeiro, o inimigo muda de estratégia e infiltra-se no clero. O modernismo, praga tão combatida pelos grandes papas do sec XIX e primeira metade do sec XX, “triunfa”. Instala-se a “religião” do homem em oposição à religião de Deus! Todo caos que presenciamos não é senão desdobramento dessa nova e amarga realidade.

O que afirmo não é exagero. Quem dera fosse! É a mais pura (E dolorosa!) realidade! Realidade outrora anunciada pela Santíssima Mãe de Deus, particularmente nas aparições de La Salette e Fátima, verdadeiros chamados à conversão ignorados pelos homens que, preferindo os prazeres mundanos e os erros do século, viraram as costas para Mãe e, conseqüentemente, para Filho. A crise na Igreja é, pois, o justo castigo divino por nosso desamor e infidelidade.

É no meio desse lacrimarum valle que nos dirigimos súplices à Sancta Dei Genetrix, implorando seu auxílio e proteção. Sua devoção, junto à devoção ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia, são as colunas de salvação que levarão a Santa Igreja à vitória final.

Confiemos nas palavras do Senhor “[...] et portæ inferi non prævalebunt adversum eam.”(Mt XVI, 18) e na promessa feita pela Santa Virgem em Fátima “Enfim meu imaculado coração triunfará”.

Ut in omnibus glorificetur Deus

Lucas Lima

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